Você se Lembra?

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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Santarém: A saga do Cinerama...

Como prometi no meu primeiro artigo, vou falar sobre o Cinerama. Inaugurado em  junho de 1978 e fechado em março de 2006, o último cinema de Santarém até o momento, sempre teve na sua trajetória  de quase 30 anos a árdua tarefa de entreter um público diferenciado em nossa cidade.

O cinema fora construído como resposta à inauguração do Cine Tapajós em 1977 no térreo do então Hotel Tropical. Antes disso, nós tínhamos o Cine Olímpia que concorria na época com o Cine Acácia e os dois cines eram a única opção para todos, tanto para a alta sociedade como para o povão. Ventiladores, cadeiras de madeira, ausência de tratamento acústico e tantos outros inconvenientes eram comuns às duas salas.

Quando o Cine Tapajós foi inaugurado com grande pompa e luxo, a high society santarena debandou-se para o novo cinema. Ar-condicionado, cadeiras estofadas,  acústica perfeita  e design moderno cativaram os mocorongos que abandonaram o Cine "Olympia" que ainda resistiu por mais nove anos graças ao povão. Óbvio que o ingresso era bem mais caro, segregando o público entre os cinemas e resultando no esvaziamento tanto do Olímpia como do Acácia.

Por questão de sobrevivência, meu pai (Raul Loureiro) decidiu construir um cinema ainda mais moderno e luxuoso para suplantar o Cine Tapajós.  Nessa guerra, éramos nós contra a poderosa Varig, dona do Hotel Tropical e de uma cadeia de hotéis luxuosos pelo Brasil como também a maior companhia aérea da América Latina.

No início, a programação do Cine Tapajós acompanhava aos lançamentos de filmes junto com as capitais, nem preciso dizer que a Varig trazia os filmes de graça em seus aviões. Finalmente, depois de um ano e meio de construção, inauguramos o Cinerama. Ele era tão moderno na época, que  jornais de Belém e Manaus noticiaram o feito com muitos elogios. Até hoje, ele é um prédio que impõe respeito com a sua fachada. Foi o único cinema do país com sala de vidro exclusiva para fumantes e a tela tinha uma curvatura tão ampla que era comparável à uma rampa de skate. Isso trazia conforto visual para quem assistisse ao filme sentado nas laterais. A central de ar era enorme e consumia uma quantidade absurda de água e energia elétrica. 

Enfim, conseguimos trazer o público de volta para o nosso lado. Tivemos sorte, pois o Cine Tapajós já não estava mais conseguindo trazer lançamentos como no início pois o Hotel estava dando muito prejuízo para a VARIG, na verdade esse investimento nunca se pagou.  Em poucos anos, o Cine Tapajós fechou suas portas.

O Cinerama funcionou solitário por vinte anos, porém tinha muitos "concorrentes": Televisão, barzinhos, restaurantes, shows, boates, locadoras de vídeo e a internet mais recentemente.  E durante esse tempo, a sala foi se deteriorando, os projetores foram quebrando, o ar-condicionado já não era como antes, os costumes foram mudando, o público estava ficando cada vez mais exigente e ao mesmo tempo intolerante ao fato de não passarmos os filmes ao mesmo tempo que as capitais. Esse sempre fora o nosso "calcanhar de Aquiles". Nós fazíamos um esforço hercúleo para trazermos grandes filmes o mais rápido possível mas era como ficar enxugando gelo. É preciso entender que nós éramos uma sala de cinema, entre as mais de 1.800 (Mil e Oitocentas) espalhadas pelo país, localizada no interior de um Estado da região Norte e com um público pífio.

É preciso esclarecer que até hoje só fazem no máximo 600 (seiscentas) cópias de cada lançamento, e não é nenhum "DVDzinho" ou fita de vídeo como muita gente "achava" que era projetado na tela e sim uma latas enormes com 35 quilos de peso com um frete aéreo caríssimo, chegando a Mil reais ao mês. Mesmo as salas modernas atuais, localizadas fora das capitais (com raras exceções), não exibem os filmes simultaneamente quando do seu lançamento. Elas ficam esperando a vez, como matematicamente já expliquei. A prioridade são de salas com grande demanda de público.

Tentei dar uma luz para vocês entenderem todo o processo, mas são muitas coisas juntas que levaram ao fechamento do Cinerama. Porém, vinte e oito anos de funcionamento foi algo extraordinário para os dias atuais. Agora já não existem mais "cinemas de Rua" e de tradição familiar, o modelo atual é de várias salas dentro de Shopping Centers controladas por grandes grupos empresariais. O padrão de sala de cinema mudou. Hoje, tudo mudou.

*Emanoel Loureiro é cineasta            

Fonte: Janela Amazônica

2 comentários:

  1. Gosto das informações apresentadas neste espaço. Moro em São Paulo, mas nasci em Santarém. Penso que um belo elenco de informações seriam aquelas referentes às importantes personalidades que Santarém teve como:políticos, educadores, artistas, entre outros que passaram por nossa terra e deixaram marcas culturais. Vale reviver essas personalidades...

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